Resumo: Educação para Além do Capital

julho 28, 2009 at 11:59 pm Deixe um comentário

A aprendizagem é nossa própria vida, desde a juventude até a velhice, de fato até quase a morte; ninguém passa dez horas sem nada aprender. (Paracelso)

O autor inicia o livro com três citações que no decorrer da temática resumem a essência da reflexão que o mesmo deseja propor.

O tema gira em torno da alienação da educação, ao passo que ela é apresentada como forma de instauração e manutenção do sistema capitalista. Várias passagens do livro apontam para a educação para o mercado e não como meio de instruir para a vida. A educação que deveria ser fator de transformação social passa a ter suas mudanças limitadas apenas a trazer crescimento ao sistema, dentro de seus valores.

Vale ressaltar que Mészáros entende a educação com um sentido amplo, que vai além dos níveis de ensino ou sistemas escolares, vê a educação como o processo vital de existência do homem, isto é, aquilo que caracteriza a sua especificidade de ser social, a saber, a capacidade de conhecer, de ter ciência do real e de, portanto, transformá-lo de forma consciente.

Mészáros inicia resgatando algumas das principais concepções filosóficas já produzidas acerca da educação e as situa no âmbito da história, mostrando as suas limitações e seu comprometimento, em última instância, com os limites impostos pela sociedade do capital. Limitações essas que se justificam, não por ingenuidade ou deficiência intelectual de seus produtores, mas pela sua incapacidade (produzida pelas condições objetivas da própria história) em apreender e transcender os limites do capital, seja por seu total comprometimento ideológico com tal ordem de coisas, como John Locke, ou mesmo quando capazes de entender e denunciar as mazelas produzidas por este sistema de controle social, como no caso de Adam Smith e Robert Owen.

É a partir das principais concepções filosóficas já produzidas a cerca da educação – bem como com a demonstração de suas limitações e comprometimento com os limites impostos pela sociedade do capital – que o autor identifica a temática fundamental: trata-se da contínua necessidade autoexpansão do sistema capitalista e de acumulação para a qual se deve produzir e reproduzir ininterruptamente as condições objetivas de sua conservação. No sistema do capital, não há espaço para a emancipação da humanidade, nem mesmo em níveis mínimos, como provara a história do século XX, no qual as forças objetivas do capital se mostraram aptas a reverter todas aquelas formas de controle social (mais ou menos significativas, dependendo do contexto em que foram criadas) sobre o processo de acumulação.

A temática do livro expande a visão da educação com o objetivo de pensar uma alternativa educacional que seja formulada do ponto de vista da emancipação humana. Isso é essencial por conta das limitações que o sistema do capital impõe também sobre a produção das idéias. Disso, o autor conclui:

“Não surpreende, portanto, que mesmo as mais nobres utopias educacionais, anteriormente formuladas do ponto de vista do capital, tivessem de permanecer estritamente dentro dos limites da perpetuação do domínio do capital como modo de reprodução sócio-metabólica” (MÉSZÁROS, 2005, p.26).

O que permite a Mészáros refletir sobre uma nova educação, mesmo que o sistema capitalista não esteja aberto a esta alternativa, é justamente o fato de a educação, tal como as concepções de mundo e a consciência dos homens, não ser determinada automaticamente pelos interesses dominantes em cada momento histórico. Se assim o fosse, “o domínio da educação institucional e estreita poderia reinar para sempre em favor do capital” (p. 50). Isso, portanto, confere à educação um caráter duplo: ao mesmo tempo constitui-se num dos momentos fundamentais da produção das condições objetivas de manutenção da ordem social do capital –pois é o meio pelo qual os indivíduos “internalizam” as perspectivas, os valores e a moral do sistema do capital, legitimando-a – e também é necessária para se pensar em uma estratégia de transição para outra forma de organização social, que esteja “para além do capital”

Apesar da ótica estratégica que o autor propõe à educação, o mesmo constata que a educação (em si) não é capaz de deter o capital. Ou seja, sem pensar em uma transformação das condições objetivas nas quais o sistema de controle sócio-metabólico do capital se impõe sobre a humanidade, não é possível conceber qualquer tipo de educação libertadora.

Frente as afirmações e deduções lógicas do sistema de acumulação de capital, o autor define o papel da educação como sendo estratégico e vital, pois a mesma está está diretamente ligada às possibilidades (de curto e de longo prazo) de superação do capital, ou seja, da construção de uma sociedade não mais determinada pelas necessidades da produção de mercadorias, pelo lucro, pela exploração alienante do trabalho. Este caráter a coloca como propulsora de qualquer processo de mudança social no sentido da emancipação humana. E como a superação da ordem do capital não significa apenas a sua negação, e sim a construção de uma nova ordem capaz de sustentar a si própria, é por meio da educação que se pode produzir esta nova concepção, como que “antecipando” uma nova forma de metabolismo social e orientando os meios para a sua execução.

Esse processo de antecipação deve criar uma espécie de “contrainternalização” (ou contraconsciência) que quebre o círculo de reprodução do capital, de maneira concreta. Isso significa criar uma forma de consciência social que liberte dos limites impostos pelo sistema, de modo a tornar os indivíduos capazes de fazer do processo de aprendizagem “a sua própria vida”. Mészáros diz ainda que é apenas nesse sentido amplo de educação que a educação formal, institucionalizada, pode contribuir para a superação do capital, realizando as suas “necessárias aspirações emancipadoras”, o que requer “um progressivo e consciente intercâmbio com processos de educação abrangentes como ‘a nossa própria vida’” (p. 59).

Para que a emancipação da educação atinja efeitos realmente duradouros, ela precisa estar orientada para “gerir as funções globais de decisão da sociedade”, impedindo assim que a negação da ordem atual das coisas se atenha condicionada por aquilo que nega. A educação tem por tarefa, então, contribuir para que a superação do capital seja feita de forma total e não mais parcial, ou particular, como nas estratégias reformistas. É contra as determinações sistêmicas do capital que ela deve combater e seu papel é “soberano”, “tanto para a elaboração de estratégias apropriadas e adequadas para mudar as condições objetivas de reprodução, como para a automudança consciente dos indivíduos chamados a concretizar a criação de um ordem social metabólica radicalmente diferente” (p. 65).

A automudança consciente é a maneira pela qual os indivíduos poderão, numa nova ordem social, tomar decisões conscientes sobre a forma de gestão de sua própria vida, é o estabelecimento do “controle consciente dos processos sociais”, o que só é possível quando a educação é plenamente “vivida” pelos indivíduos. Este controle, por isso mesmo, se converte na forma de superação da forma alienada de mediação dos homens entre si, tornando-se uma mediação consciente, uma efetiva automediação. Uma vida determinada pelas necessidades humanas efetivas e não pelas necessidades criadas no âmbito do capital.

Apenas nos termos de uma transformação intensiva, que caminhe no sentido da construção de uma nova ordem social, que a universalização da educação e do trabalho, como atividade humana auto-realizadora, poderão se transformar em realidade. Contudo, como citado anteriormente, não se trata apenas de uma “mudança educacional”, mas de uma mudança objetiva de toda a forma de vida, de todo o modo de ser da humanidade, de maneira que a educação deixe de ser um momento específico da vida, com fins utilitários determinados, e passe a ser a própria vida de todos os homens. Nesta diretriz Mészáros recorra a 3ª tese de Marx sobre Feuerbach para resumir toda a complexidade desta educação: “A coincidência da modificação das circunstâncias e da atividade humana só pode ser apreendida e racionalmente compreendida como prática transformadora”.

Para o autor, além de uma possibilidade, esta mudança de pensamento é uma necessidade que tange a sobrevivência da humanidade, como forma de prevenção à ordem cíclica destrutiva do capital.

MÉSZÁROS, István. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2005.

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É questão de prioridade, não de tempo Comunicação Pública

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